Consciência Negra: Ex-deputada Rosária Helena destaca a importância da data e relata situação de racismo enfrentada no parlamento

Mais do que homenagear Zumbi dos Palmares, grande líder de resistência à escravidão, o dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, propõe uma reflexão sobre a influência das raízes africana no desenvolvimento da identidade cultural brasileira e, sobretudo, os impactos causados pelos 300 anos de escravidão na história do país.

Em entrevista ao PROS Nacional, a ex-deputada estadual e atual Presidente do PROS Rondônia, Rosária Helena, destaca a importância desta data, comenta o racismo estrutural no Brasil e aponta a sub-representação do negro nos parlamentos brasileiros.

Questionada se já teria vivenciado ou sofrido algum tipo de racismo durante o exercício de sua atividade parlamentar, a ex-deputada revela uma situação constrangedora ocorrida na Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia.

 

Confira a Entrevista na íntegra:

 

Qual a importância de comemorar o dia da Consciência Negra? Apenas um dia do ano é suficiente para debater a questão do Racismo no Brasil?

Veja, o racismo no Brasil é estrutural, um problema que, muitas vezes, é jogado para debaixo do tapete como se ele não existisse. A minha atuação política está muito ligada com essa questão. Tenho participação ativa no movimento negro, por entender que essa luta precisa ser travada diariamente. Ter uma data comemorativa é um símbolo importante e ajuda para firmar uma identidade.  Temos duas datas comemorativas no calendário brasileiro; o dia 20 de novembro que remete a memória, luta e resistência de Zumbi dos Palmares e o 13 de maio, o dia da abolição da escravidão. O movimento negro opta por celebrar a data de 20 de novembro, pois tem mais a ver com a luta do negro no Brasil. É uma data importante, mas não podemos pautar o racismo apenas nesta época do ano, uma vez que o preconceito racial é vivenciado cotidianamente em nossa sociedade.

 

Se considerarmos que 53% da população brasileira é composta de negros e pardos, observa-se que a representatividade do Negro ainda é muito pequena em profissões de destaque na sociedade e, principalmente, no mercado de trabalho. No meio político não é diferente.  Se tratando de cargo eletivos, como fica esta representatividade no parlamento?

Existe uma grande sub-representação do negro nos parlamentos. No entanto, é importante lembrar as importantes figuras da resistência negra que passaram pelo parlamento federal, como Abdias Nascimento e Carlos Alberto Oliveira, autor da Lei 7.716/89, que definiu o crime de racismo no Brasil e ficou conhecida como Lei Caó, em homenagem a esse ilustre brasileiro falecido em 2018.

 

Na opinião da senhora, o que deveria ser feito para combater o racismo no Brasil?

Primeiramente cumpri a lei. O Brasil vive, atualmente, um cenário preocupante de intolerância e ódio que se volta também contra as chamadas minorias. Precisamos reafirmar a necessidade das cotas, como resgate histórico de injustiças e abandono. O Racismo e a violência dele derivada estão intrinsecamente ligados a alma brasileira. Foram 300 anos de escravidão que é um tempo muito longo para uma nação tão nova. É importante ressaltar que, temos um fator agravante: a liberdade veio sem nenhum direito ou oportunidade. As políticas afirmativas são tímidas, recentes e despertam uma oposição brutal dos reacionários.

 

A senhora já passou por alguma situação de racismo no parlamento?

Como todos sabemos, o racismo não escolhe local, sexo, idade, posição social ou algo do tipo.  A única escolha é a cor da pele. Infelizmente, ele está presente em todos os âmbitos da sociedade, porém, nos poderes Executivos, Legislativos e Judiciários, ele aparece numa camuflagem quase perfeita. Mas, em algum momento ele vem à tona de forma muito perversa. Foi o que aconteceu comigo, durante uma Sessão na Assembleia Legislativa do Estado de Rondônia, quando eu era Deputada Estadual. Um colega de parlamento queria que eu votasse a favor de uma propositura que eu tinha uma posição contrária. Quando eu proferi o meu voto contra que seria decisivo para a aprovação do referido projeto, ele me disse em alto bom tom, que se aquela ” NEGRA MACACA”, tivesse sido favorável o resultado seria positivo. Em se tratando de racismo, esse fato foi o pior em toda minha vida.

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