Observatório da Democracia inaugura ciclo de debates com mesa sobre saúde

Teve início nesta segunda-feira (4/5) o ciclo de webconferências Diálogos, Vida e Democracia. A iniciativa do Observatório da Democracia, fórum que reúne fundações do PROS, PT, PSB, PCdoB, PPL, PDT, PSOL e Cidadania, pretende agregar forças do campo democrático da política brasileira e construir propostas para enfrentar a crise política e econômica e os impactos da Covid-19 no país. 

A mesa inaugural debateu o tema “Coronavírus, isolamento social e saúde pública” e contou com a audiência de mais de 500 internautas em tempo real e mais de 13 mil visualizações durante mais de uma hora de duração. 

Com a mediação do presidente da Fundação Perseu Abramo, Aloizio Mercadante, participaram da primeira conversa on-line os ex-ministros da Saúde Artur Chioro e José Gomes Temporão, o líder do grupo de pesquisa “Desenvolvimento, Complexo Econômico-Industrial e Inovação em Saúde” da Fiocruz e ex-Secretário de Ciência & Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Carlos Augusto Grabois Gadelha, e o secretário de Estado de Saúde de Pernambuco (SES-PE), André Longo.

O ex-senador Mercadante provocou os convidados a debaterem sobre questões como a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) no enfrentamento à pandemia da Covid-19, qual a estratégia para sair do isolamento social com segurança e de que forma é possível combater a falsa oposição entre saúde e economia. 

Longo compartilhou os desafios como gestor público no enfrentamento à crise sanitária. À frente da SES-PE, ele comentou sobre a grande dificuldade em ampliar leitos em Pernambuco para preparar do sistema público para o furacão que é a Covid-19.

“Começamos a tomar medidas de isolamento precocemente, mas temos que lamentar quando a liderança negativa do presidente Bolsonaro ocupa a mídia para combater a quarentena. Desse modo, temos uma fragilização no controle.”
André Longo, Secretário Estadual de Saúde de Pernambuco

Ex-ministro da Saúde, Chioro ressaltou que os aspectos econômicos e sociais são importantes e que a pandemia da Covid-19, no Brasil, encontrou um país extremamente desigual. Inicialmente, a doença atingiu as classes média e alta da sociedade brasileira. Hoje, apontou, atingiu as periferias, onde as pessoas não têm acesso à saúde complementar e privada dos planos de saúde.

Chioro também falou sobre o impacto da desmontagem do programa Mais Médicos e a desestruturação da área de atenção básica. Essas medidas contra o SUS, hoje, cobram um preço altíssimo. Essa fatura pesa contra a capacidade de resposta, da investigação dos casos assintomáticos leves, acompanhamento de pessoas idosas, pessoas em comorbidade e, em particular, nas comunidades onde vive a população mais vulnerável do Brasil.

“Outro aspecto fundamental foi a incapacidade do governo brasileiro de articular a nossa capacidade de aquisição e garantia de Equipamentos de Proteção Individual tanto dos trabalhadores da saúde pública quanto do setor privado. Além do mais, a incompetência de fazer a reconversão da nossa indústria é outro fator de atraso, já que não investimos em pesquisa como precisava.”
Artur Chioro, ex-ministro da Saúde

Temporão, também ex-ministro da Saúde, analisou que o Brasil é um dos países com maior taxa de velocidade de disseminação da doença. As projeções, disse, apontam para meses de maio e junho muito dramáticos. Ele comentou ainda que a singularidade brasileira da desigualdade social faz com que pessoas mais jovens com doença crônica não controlada, por várias motivos, fiquem internadas ao contrair a doença.

“É evidente que o vírus não é democrático. Sobre a questão econômica, temos uma lentidão nas tomadas de decisão por parte do governo. A ajuda econômica não chega e, quando chega, é insuficiente. Isso faz com que as pessoas em vulnerabilidade busquem meios de sobrevivência.”
José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde

Grabois avaliou que a crise deflagrada pela pandemia da Covid-19 escancara o fato de que sem um Projeto Nacional de Desenvolvimento o país ainda enfrentará diversos problemas além da pandemia. Ele comentou que a institucionalidade de Estado para atuar nessa crise foi desmontada e a base institucional de política pública para responder à crise foi quebrada.

“A gente está em uma vulnerabilidade imensa. Em relação à tecnologia, temos a dependência de 60% dos equipamentos da saúde que são importados. Cerca de 94% do material de fármacos é de conteúdo importado. Se houver novos tratamentos terapêuticos iremos esbarrar em uma crise gravíssima. A gente tem que reconstruir a capacidade de planejamento, capacidade de produção do Estado, capacidade de produção do País. Temos uma riqueza científica imensa para converter esse conhecimento em benefício para nossa sociedade.”
Carlos Grabois, Fiocruz

Confira a mesa on-line na íntegra: