Terceiro encontro virtual de Diálogos, Vida e Democracia aborda política externa brasileira

Nesta terça-feira, 12, o ciclo de debates Diálogos, Vida e Democracia promovido pelo Observatório da Democracia abordou o tema “O Brasil na crise mundial”. O terceiro evento on-line foi mediado pelo presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo. 

O ponto de partida para a troca de ideias foi o artigo assinado por vários nomes importantes da diplomacia brasileira e veiculado pela grande mídia intitulado “A reconstrução da política externa brasileira”. O texto foi publicado no dia 8 de maio e já é considerado um marco histórico por reunir nomes de diferentes campos políticos que atuaram na área da política externa. 

O artigo é de autoria de Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República e ex-ministro das Relações Exteriores; Aloysio Nunes Ferreira, Celso Amorim, Celso Lafer, Francisco Rezek e José Serra, ex-ministros das Relações Exteriores; Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda, do Meio Ambiente e ex-embaixador do Brasil em Washington; e Hussein Kalout, ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. 

Dois dos signatários do texto que serviu de base para o diálogo sobre política externa e que analisa o cenário das relações internacionais sob a administração atual participaram do evento: Celso Amorim e Rubens Ricupero. Também participou do debate Luís Fernandes, ex-secretário executivo de Ciência e Tecnologia, ex-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e professor de Relações Internacionais PUC/RJ e UFRJ.

Rabelo, coordenador da mesa, comentou as diversas violações cometidas pela atual política externa brasileira que ferem a Constituição Federal. Ele questionou os convidados de que forma é possível restabelecer a constitucionalidade das relações externas. 

Na avaliação dos convidados, há uma grande preocupação com a sistemática violação pela atual política externa brasileira dos princípios orientadores das relações internacionais do Brasil. Foi consenso entre os convidados que o Brasil tem se afastado da vocação universalista e perdido a capacidade de dialogar e estender pontes com diferentes países. 

Os efeitos dessa política equivocada, além de violar a Constituição Federal, impõe ao País custos elevadíssimos. Como a ruína da credibilidade externa, perda de mercados e fuga de investimentos. O que tem sido destruído desde o início do atual governo da extrema-direita levará tempo para ser refeito. 

Para o ex-chanceler Amorim, não se pode conciliar independência nacional com a subordinação a um governo estrangeiro, como tem sido o caso da relação do Brasil com os Estados Unidos. Ele comentou sobre os possíveis impactos da pandemia no mundo e destacou algumas medidas conjuntas, através de um gesto solidário, para evitar uma pandemia de tamanha proporção. 

“Embora seja muito complexo fazer previsões sobre o real impacto da Covid-19 no sistema internacional, acredito que no futuro teremos um trabalho conjunto entre nações. A colaboração dos povos é capaz de evitar pandemias como essa com a ampliação da cooperação internacional.”
Celso Amorim

Ricupero criticou o desempenho da diplomacia brasileira, em virtude da estratégia equivocada do governo federal para o enfrentamento à pandemia da Covid-19 o Brasil está isolado do resto do mundo. O presidente, inclusive, é personagem de forma negativa de vários editoriais de veículos mundo afora, como The Washington Post e The Lancet. Ele enfatizou ainda as violações constitucionais do governo federal na forma de se relacionar com os demais Países e demonstrou preocupação com o cenário atual. 

“É preciso que o Congresso saia um pouco de sua inércia em relação à política externa. Muito embora seja compreensível a necessidade de priorizar outras questões em meio a pandemia, é necessário fiscalizar escândalos como a permanência do deputado federal Eduardo Bolsonaro na presidência de relações exteriores da Câmara quando se deveria haver uma eleição para escolha do substituto.”
Rubens Ricupero

Fernandes apontou a tendência de um aceleramento na transição da ordem mundial – configuração relativamente estável e persistente de relações de poder no sistema internacional – com os efeitos colaterais do Covid-19. 

“Se formos pensar o que está acontecendo no mundo nas últimas duas décadas e como a pandemia impacta sobre essa evolução, é possível afirmar que estamos vivendo uma profunda mudança no sistema internacional.”
Luís Fernandes

Fernandes avaliou ainda que os países, sobretudo asiáticos, que preservaram a capacidade de intervenção e regulação estatal maior nas suas sociedades e na economia estão superando os efeitos da crise. Ele comenta que essa rapidez e eficácia na contenção da pandemia se desdobra em uma recuperação mais rápida na economia.

O ciclo de webconferências Diálogos, Vida e Democracia é realizado pelo Observatório da Democracia, fórum que reúne fundações do PROS, PT, PSB, PCdoB, PDT, PSOL e Cidadania, e pretende agregar forças do campo democrático da política brasileira e construir propostas para enfrentar a crise política e econômica e os impactos da Covid-19 no país.

Confira a íntegra do evento